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 13 de fevereiro é o Dia Mundial do Rádio.

Sempre que se aproxima essa data, vêm comigo imagens do belo trabalho cinematográfico de Wood Allen, “A era do Rádio”, quando ele, magistralmente, relembra o Rádio nas décadas de 40 e 50, nos Estados Unidos, o que muito se assemelhava ao que acontecia aqui no Brasil.

Quem viveu bem no interior, nesses anos, por certo ainda se lembra: as pequenas emissoras de rádio de ondas médias, com antenas de 100 watts, cujo sinal mal chegava aos arredores da cidade, e que operavam a partir de uma mesa simples de dois pratos de 78 rotações – um de cada lado -, um painel central com alguns botões de rotação suave e um marcador analógico de volume, que nivelava o som enviado para o transmissor. Do outro lado da janelinha envidraçada, bem iluminado, um pequeno estúdio dominava o ambiente, onde se destacavam o microfone “bolachão” em cima da mesa e uma luzinha vermelha acesa, indicando que o locutor estava “no ar”.

Assim era o rádio daquela época. Perdidas no meio do Estado, essas rádios eram sempre as queridinhas dos ouvintes, desde a zona central até os bairros mais afastados. Encantavam com seu romantismo, e até com passagens hilárias, que acabavam entrando para o anedotário da cidade.

Lembro-me de algumas dessas histórias, quando, aos quinze ou dezesseis anos, me adestrava numa dessas rádios como técnico de som: certa vez, o locutor de um determinado horário da tarde, entre os atendimentos de modas sertanejas, sentiu que precisava resolver, com urgência, certas contingências gástricas, servindo-se de um pequeno reservado ao lado da Técnica. Mas a coisa demorou mais do que ele imaginava. Então, acabou o disco, ficando a emissora em silêncio durante alguns minutos. O “sonoplasta”, já com o microfone aberto no estúdio, gritava para que ele voltasse. Pois bem. Ele puxa a correntinha da caixa d’água (ruído nitidamente registrado no ar), retorna à mesa de locução e diz serenamente aos seus ouvintes: “Estivemos fora do ar por motivos de ordem técnica”. Foram só risadas naquele dia.

Apesar de toda essa simplicidade, carência de recursos, sem contar com os sucessos musicais do momento, tínhamos os nossos expedientes: numa saída meio sem vergonha, entrávamos clandestinamente em cadeia com os programas famosos da Rádio Bandeirantes. Aí a audiência crescia, colocando-nos em dia com o “hit parade” nacional. Mas, às vezes, acabava a música e a Bandeirantes invadia o nosso prefixo. Era uma correria desligar tudo e, preocupados, esperar alguma séria repreensão da chefia.

Um dia, descobrimos na discoteca uns discos imensos de acetato (creio de música instrumental, não me lembro bem), que rodavam durante dez ou doze minutos ininterruptamente. Logo viraram um programa de música clássica para o fim da noite.

Então, o que fazíamos: botávamos o discão para tocar e, de mansinho, íamos até o bar da esquina, tomar qualquer coisa, bater um papo.

Por azar, numa dessas “audições”, o disco empacou logo no começo, repetindo a mesma passagem musical, uma vez atrás da outra. Não é preciso dizer o que aconteceu conosco, locutor e técnico do horário.

Outra vez, um curto-circuito literalmente “derreteu” as instalações da pequena sala da Técnica. Ficamos fora do ar por mais de dez dias, até que o responsável por aquela área da Rádio conseguisse novas válvulas, fiações, dispositivos eletrônicos e tudo o mais, e conseguisse pôr a estação no ar.

Esses dois episódios serviram para mostrar como era ouvida a Rádio… e querida: nunca se recebeu tantos telefonemas de gente querendo saber o que acontecia com aquela emissora que, ou repetia cansativamente o mesmo trecho da mesma música, ou ficava muda quando era sintonizada.

As explicações sobre o silêncio foram muito bem esclarecidas, no devido tempo. Mas sobre aquelas tais repetições nunca mais se falou no assunto.

 

Gustavo Mazzola mazzola@sigmanet.com.br

 

 

 

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