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* Pedro J. Pondaczuk

O Natal, comemorado há mais de dois milênios por vasta parcela da humanidade, embora centralize-se na figura de Jesus de Nazaré – nascido de uma virgem, aproximadamente no ano 4 da era que leva seu nome – é, acima de tudo, a celebração da vida. Trata-se da certeza do homem de que, a despeito de cataclismos cósmicos imprevisíveis e incontroláveis, da fúria da natureza da Terra e/ou dos letais engenhos bélicos criados por ele próprio, este dom precioso e, provavelmente raro no universo, jamais haverá de se extinguir.
Todavia, por se tratar da cele­bração de um aniversário, o do nascimento daquele que veio ao mundo pregar uma mensagem de paz e de solidariedade entre os homens, é lícito que aqueles que podem, festejem, sim, a ocasião. Claro, com prudência e moderação. Mas…
Seria desejável que os que têm condições para festejar, praticassem uma boa ação e contribuíssem para que os desvalidos que os cercam tivessem ao menos um dia, nem que seja um único do ano, de sonho e de fantasia. Que houvesse, ao menos, o que comer em suas mesas, já que em muitas, alimentos sofisticados e, às vezes, até impróprios para nossas condições de clima, não apenas abundam, mas acabam sendo esbanjados. Infelizmente, isso é cada vez mais raro.
O Natal, quer no aspecto litúrgico, quer no profano, é, basicamente, a festa da família. Pelo menos deveria ter essa característica, que o tornaria marcante, ano a ano, pela vida afora, e não seria encarado, meramente, como é por muitos (talvez pela maioria) como um feriado qualquer, sem nenhum significado especial. Hoje, infelizmente, a ocasião presta-se a muita pieguice, a muita demagogia, a muita hipocrisia e a muita exploração da ingenuidade e da boa fé alheias.
Esta é uma data para ser celebrada não apenas com nossos parentes e amigos, mas com a grande família humana. É para ser compartilhado com os pobres, com os humildes e com os oprimidos da Terra, pois são os que vão “herdar o Reino de Deus”, conforme promessa de Jesus Cristo no sublime “Sermão da Montanha”. Estes, porém, continuam morrendo de fome, de doenças provocadas por aguda desnutrição e vítimas das drogas e da violência, na África, na Ásia, na Europa, nas Américas, sobretudo na periferia das grandes e opulentas cidades de todo o Planeta e, principalmente, ao nosso redor, sob os nossos olha­res indiferentes e enfastiados.
Festejemos, sim, o Natal, mas deflagrando a Revolução do Amor, a única que pode nos redimir e que Jesus Cristo tentou, em vão, liderar, há dois mil anos, nas terras áridas da atormentada Pa­lestina. Pois como constatou Michel Quoist, em magistral texto, em um dos seus livros: “Na nossa vida há duas soluções: amar a si próprio até o esquecimento total dos outros ou amar os outros até o esquecimento total de si”.
As consequências de cada uma dessas opções são diame­tralmente opostas: perdição ou salvação. Não nos deixemos vencer pela tentação de enveredar, em nossa vida, pela estrada aparentemente perfeita, asfaltada e bem sinalizada, da fortuna e da glória. Ela nos conduz, na verdade, ao abismo. Tenhamos, isto sim, coragem, determinação e fé para seguir o caminho íngreme, pedregoso e repleto de espinhos, da bondade e do altruísmo, para alcançarmos o prêmio glorioso da redenção.
Feliz Natal para todos e um 2018 próspero e marcante, que seja marco de sucesso e de felicidade em nossas vidas.

* Pedro J. Pondaczuk é jornalista, escritor e membro da Academia Campinense de Letras

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