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Se meu pai estivesse vivo, estaria completando, em outubro, a idade de 130 anos. Sim, ele se casou mais tarde e nasceu antes da Proclamação da República, em 1887. Vejam como o tempo passa! Ele não era de muita conversa, mas gostava de contar algumas histórias sobre sua família, porque eu e meu irmão sempre fazíamos perguntas. Era um costume entre nós: conhecer a história de nossos antepassados. Num pequeno caderno, que até hoje conservo, ele costumava escrever todos os acontecimentos do dia a dia da família.

Meu pai continua muito presente em minha vida. Sua simplicidade, firmeza, disciplina e espírito de pobreza me trouxeram muitos ensinamentos. Iniciou sua vida em Jundiaí, trabalhando nas oficinas da Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Passou a auxiliar de escritório, telegrafista e chefe de estação.

Os boatos a respeito do encerramento das aposentadorias, ao tempo de Getúlio Vargas, o fez se aposentar muito cedo. Isso lhe custou muito sacrifício e preocupação. Para ajudar na sustentação da família, trabalhou, em São Carlos, recolhendo e vendendo papéis velhos. Em Campinas, foi vendedor de bilhetes de loteria, inspetor de alunos no Colégio Dom Pedro II, auxiliar de biblioteca no Centro de Ciências Letras e Artes, e cobrador de mensalidades do Clube dos advogados.

Aprendi, desde pequeno, que viver era a arte de descobrir sempre novos caminhos, usar de criatividade, perseverar e nunca desistir. Esse é José da Fonseca Magalhães, o pai que me ensinou a amar minha mãe, rezar todos os dias, e que me incentivou a entrar para o seminário com 9 anos para ser padre. Homem de fé, amigo do silêncio, acolhedor dos pobres, metódico em seu viver, esposo fiel, trabalhador incansável. Com ele aprendi também a gostar de música: de vez em quando ele reinava no violão.

Quando me ordenei padre, meu pai já tinha 76 anos. Já demonstrava certo cansaço e algumas doenças atrapalhavam o seu viver. Foi nesse tempo que descobri o que significa ser casal, ser família: minha mãe, que sempre cuidou com carinho e dedicação dos serviços domésticos, saiu de casa para trabalhar como tesoureira no Colégio Bandeirantes, em dois turnos, indo e voltando a pé, para a cidade.

Durante 11 anos pude ainda conviver com meu pai e assimilar os valores que vivia, pois, voltei a morar com meus pais, após minha ordenação sacerdotal. Não podendo ir sempre à missa, na igreja, recebia a comunhão em casa, assistindo às missas transmitidas pela TV. Quando faleceu, a tristeza nos envolveu muito, especialmente minha mãe, porque os dois eram realmente um casal que realizou o projeto de Deus: “o homem deixaro seu pai e sua mãe, e se unirá a uma mulher, e os dois serão uma só carne” (Gên 2,24 – Mt 19,5).

Agradeço a Deus por poder escrever essa história de amor e honestidade de meu pai. Fico a pensar na triste situação de muitos filhos: o que irão escrever a respeito de seus pais, esses homens públicos e empresários que estão sendo acusados, julgados, condenados, tendo seus nomes constantemente citados pelos meios de comunicação!? Pobres pais: de nada servirá toda riqueza material acumulada, em meio a tanta pobreza ética, moral e espiritual.

Há algo que não podemos abrir mão, por nada e nenhum dinheiro na vida. Disso nos lembramos sempre, quando rezamos: “Santificado seja o vosso Nome…”

 

Côn. Luiz Carlos F. Magalhães

é pároco da Igreja Cristo Rei e jornalista.

 

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