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Nosso tempo apresenta uma impressionante busca de formas de vida comunitária. Paira sobre muitos de nossos contemporâneos o fantasma da solidão, do isolamento e do anonimato. Enquanto na era do computador e da informática o homem corre o risco de ser reduzido a um simples número ou ficha de dados, este mesmo homem procura se auto-afirmar como Pessoa, como Alguém dotado de vontade, afeto e inteligência próprios, como um ser único e insubstituível.
Há mais de um ano a Igreja Católica vem buscando um novo caminho para a Pastoral, tentando repetir o gesto de Jesus de “ir ao encontro das Pessoas”, superando os espaços físicos para chegar às “periferias de nossas cidades”, como diz o Papa Francisco. Ele mesmo toma essa atitude, surpreendendo seus assessores e funcionários do Vaticano. Fala-se em Igreja em Saída, enquanto os protocolos da COVID-19 nos pedem para ficar em casa.


Padres e leigos tiveram que recriar suas formas de aproximação das pessoas, entrando nas redes sociais e fazendo chegar à casa de cada fiel as celebrações e orientações pastorais mais ­atuais. É um novo aprendizado para cada cristão fazer a experiência de Deus e intensificar a prática religiosa em suas próprias casas. Não é para se acostumar a ficar em casa, se acomodar com a “missa em casa”, mas fazer de sua casa um Igreja Doméstica.


Os mais de 2000 anos de cristianismo são ricos em experiências concretas de vida comunitária. Não podendo celebrar sua fé publicamente, por causa das perseguições, os primeiros cristãos se reuniam em casas para a “fração do pão”, como escreve Lucas nos Atos dos Apóstolos. Tudo começou com aquele grupo dos doze homens reunidos por Jesus. E são os cristãos dessas comunidades, especialmente em momentos de crise e dificuldades, que vão procurar – sempre de novo – sua inspiração e motivação evangélica para purificar a Igreja de seu tempo, fazendo-a retornar à genuína vivência da mensagem do Senhor.


A audácia da fé ressalta aos olhos. Frente aos grandes do mundo, narra os Atos dos Apóstolos, e até diante das autoridades religiosas daquele tempo, os primeiros cristãos não hesitam em afirmar, corajosamente, que o Crucificado de Nazaré, condenado por todos, é o Messias prometido. Diversos ministérios e serviços vão surgindo nas comunidades. As próprias mulheres exercem papel ativo na vida dessas comunidades (At 21; Rm 16), assumindo pesadas ­responsabilidades (1Ts 5,12; 1Cor 16), mesmo no Culto (1Cor 11,5).


Fundamental para a vivência da novidade cristã na Igreja Pri­mitiva é a celebração eucarística e a partilha fraterna dos bens. Os primeiros cristãos não perten­ciam, via de regra, à classe abastada da sociedade. O despojamento das riquezas, em benefício do irmão necessitado, é sinal eficaz do ser-cristão. Daí a severidade com que é julgada a fraude de Ananias e Safira (At 5,1).


As mensagens e documentos do Papa Francisco, assim como sua prática pastoral na Diocese de Roma e suas visitas pastorais às várias nações vêm relembrar aos católicos suas origens, sua vocação à vida comunitária e de serviço, a retomada da missão, a presença libertadora e transformadora no mundo. Paulo VI, em 1974, já questionava a Igreja, em sua ainda insuperável Exortação Apostólica, Evangelii Nuntiandi:
“O que é feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa Nova, susceptível de impressionar profundamente a ­consciência dos Homens? Até que ponto e como é que essa força evangélica está em condições de transformar verdadeiramente o homem deste nosso século?” 


Ficar em casa e sair de casa, entender o espírito dos novos rumos da Igreja, desinstalar-se de uma vida cômoda e rotineira, é a questão proposta para todo católico pensar e re-pensar nes­tes tempos de Pandemia e novo a­prendizado. Vivemos um tempo de mudança de época onde os cristãos são chamados a tomar uma decisão e passar de “católico praticante”, a seguidor de Jesus, o Homem de Nazaré que não ­admite “ficar em cima do muro” e espera de cada discípulo assumir sua missão em Casa, na Igreja e no Mundo.
Agosto, Mês das Vocações, e a Comemoração do Dia dos Pais nos motivam a refletir e tomar uma decisão.

Côn. Luiz Carlos F. Magalhães é jornalista, Pároco Emérito
 e colaborador da Paróquia Santa Rita de Cássia,  Campinas


 

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