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A primeira e a última cena dizem muito de um filme quando ele é bem urdido. São sinais de um processo criativo cuidadosamente elaborado a nos questionar enquanto público. Esse é o caso da obra francesa ‘O pequeno fazendeiro’ (‘Petit Paysan’), de Hubert Charuel.

No início, temos o protagonista sonhando que está caminhando em uma casa cercado de vacas por todos os lados, interrompendo a sua passagem, sem violência, mas tornando seus momentos progressivamente difíceis. Ao final, ele surge sozinho por uma estrada, numa imagem muito próxima do célebre Carlitos chapliniano, vagando pelo mundo em busca da próxima aventura.

Entre o começo e o término, temos o criador de vacas leiteiras do título às voltas cm uma epidemia. Ao ter o primeiro animal afetado, deve denunciar ás autoridades sanitárias para que seus animais sejam mortos e receba uma indenização. Mas ele sabe que nada é simples assim. O pagamento oficial demora e a possibilidade de perder a propriedade é grande.

A irmã veterinária, a mãe autoritária e sua dedicação extrema ao trabalho ajudam a compor um painel dramático e ético, em que a melhor solução para o país e a saúde pública não lhe servem e vice-versa. A derrocada é iminente perante o sistema, mas ele procura adiá-la o máximo possível. Seu fracasso é o do herói que morre pelo bem da comunidade, porém sem glória e reconhecimento. Apenas resta o vagabundo a seguir sua jornada pelos caminhos nem sempre justos da vida.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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