Claudya celebra 60 anos de carreira em show no SESC Campinas
Claudya celebra 60 anos de trajetória artística com a turnê “Deixa eu dizer”, que chega ao Sesc Campinas no dia 9 de abril. A apresentação integra as comemorações de seis décadas dedicadas à canção brasileira e revisita momentos fundamentais de sua carreira, reafirmando a força interpretativa e a sofisticação musical que marcaram seu percurso desde os anos 1960.

Depois de uma estreia celebrada em São Paulo, a turnê segue agora para Campinas em um espetáculo que equilibra memória e reinvenção. No palco, Claudya é acompanhada por uma banda formada por nove músicos, em arranjos especialmente concebidos para o projeto, que ampliam as possibilidades sonoras de seu repertório e revelam novas nuances de canções que atravessaram gerações.
Com uma carreira iniciada nos anos 1960 e reconhecida como uma das vozes mais elegantes e marcantes da música brasileira, Claudya construiu um percurso singular na música popular brasileira, transitando com naturalidade entre o samba, a bossa nova, o soul, a canção romântica e a música internacional.
Ao longo de 60 anos, Claudya lançou discos importantes, participou de festivais, programas de televisão, projetos especiais e colaborou com músicos, arranjadores e compositores fundamentais da cena brasileira. Sua trajetória atravessa diferentes fases da indústria fonográfica e do próprio país, mantendo sempre como eixo central a força da interpretação e o compromisso com a emoção direta, sem excessos ou artifícios.
A turnê “Deixa eu dizer” nasce justamente desse desejo de olhar para trás sem nostalgia paralisante, propondo uma escuta atualizada de um repertório que dialoga com diferentes gerações. O título do espetáculo sugere esse gesto de afirmação da palavra e da voz — um convite para que Claudya conte sua história cantando, mas também para que o público reconheça, nesse percurso, fragmentos da própria memória afetiva da música brasileira.
No palco, o show se estrutura como um encontro entre passado, presente e futuro. O repertório revisita canções emblemáticas de sua discografia, clássicos que marcaram época e interpretações que ajudaram a consolidar seu nome, ao mesmo tempo em que abre espaço para releituras e diálogos com artistas convidados que representam distintas gerações da MPB.
Para a artista, “Esse show é a “celebração de um período importante da minha trajetória e a comemoração dos meus 60 anos de carreira”, ao comentar a oportunidade de abrir a temporada no palco da Casa Natura Musical. Este novo ciclo vem acompanhado do relançamento em vinil dos álbuns Jesus Cristo (1971) e Deixa Eu Dizer (1973), marcos de sua discografia e da música brasileira. “A ideia é passear pelos álbuns mais significativos da carreira. Levarei para o palco o melhor das canções que gravei na década de 70 como: “Menina Fulô”, “Só que deram o zero pro Bedeu”, “Pois é, seu Zé”, “Como dois e dois são cinco”, além de homenagear dois compositores importantes nessa trajetória que são Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle”, comenta Claudya sobre a escolha do repertório, que inclui ainda grandes sucessos de “Você, Cláudia, Você” (1971) e “Reza, Tambor e Raça” (1977).

Sobre Claudya
Nascida Maria das Graças Rallo, no subúrbio do Rio de Janeiro, Claudya mudou-se ainda criança com a família para Juiz de Fora, em Minas Gerais. Foi ali que começou a cantar em festas escolares e programas de auditório locais, chamando atenção desde cedo pelo talento e pela presença de palco. Aos 17 anos, em busca de oportunidades profissionais mais amplas, mudou-se novamente com a família, dessa vez para São Paulo, então um dos principais polos da música popular brasileira e sede de programas televisivos que funcionavam como verdadeiras vitrines para novos talentos.
Naquele momento, um dos espaços mais cobiçados era O Fino da Bossa, exibido pela TV Record. Foi o trompetista Waldir de Barros, músico da orquestra da emissora e figura que Claudya considera seu grande apoiador, quem sugeriu que a jovem cantora fizesse um teste para o programa. Aprovada, foi contratada e escalada para a segunda parte da atração, dividindo o palco com nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues e Baden Powell. Foi ali que Maria das Graças deixou de existir artisticamente: por sugestão da própria cantora — inspirada na ascendência italiana do pai —, adotou o nome Cláudia. “Eles queriam um nome marcante”, relembra. Décadas depois, nos anos 1990, a grafia seria alterada para Claudya, por sugestão da numerologia.
O início era promissor, mas aquele período também marcaria um dos episódios mais dolorosos de sua trajetória. Em 1965, impulsionada pelas aparições na televisão, gravou seu primeiro disco, um compacto. No ano seguinte, foi convidada pelo jornalista e produtor Ronaldo Bôscoli para uma temporada de shows no Rio de Janeiro. A proposta inicial — batizar o espetáculo de Quem Tem Medo de Elis Regina? — causou estranhamento imediato. Claudya nunca compreendeu a ideia e recusou o título, que acabou sendo substituído por Cláudia: Não Se Aprende na Escola. Ainda assim, a história se espalhou e a cantora tornou-se alvo do que hoje se chamaria de fake news: passou a ser vista como oportunista, alguém que desejava ocupar o espaço de Elis.
Segundo Claudya, nada foi feito para desfazer o mal-entendido. “A intenção deles era botar mais lenha na fogueira, porque O Fino da Bossa estava perdendo audiência para o programa Jovem Guarda, do Roberto Carlos. Queriam fomentar rivalidade, briga — e eu não queria nada disso. Eu queria cantar, trabalhar, ganhar meu dinheiro”. Ela lamenta nunca ter conseguido conversar sobre o assunto com Elis, falecida em 1982. “Eu precisava falar com ela, sentia essa necessidade, mas infelizmente não foi possível”.
Mesmo com a insistência da direção para que permanecesse no programa, Claudya deixou a Record e migrou para a TV Excelsior, onde passou a integrar o elenco do Ensaio Geral, ao lado de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Ainda assim, o episódio afetou suas oportunidades no Brasil. Diante do cenário, decidiu ir para o Japão, onde permaneceu por seis meses realizando shows e gravando dois compactos e um LP. De volta ao país, encontrou nos festivais da canção um novo impulso: participou de disputas na TV Record e na TV Excelsior, além de festivais internacionais, defendendo obras de compositores como Marcos e Paulo Sérgio Valle, Baden Powell e Paulo César Pinheiro.
No auge da carreira, porém, outro revés: segundo a cantora, a chegada de Clara Nunes ao cast da gravadora fez com que as atenções se concentrassem exclusivamente na nova estrela. Àquela altura, Claudya já compunha — em um período, como ela própria observa, em que “não se confiava muito nas mulheres compositoras”.
Um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória viria em 1983, quando foi escolhida para protagonizar o espetáculo Evita, sobre Eva Perón. Cantando, dançando e atuando ao lado de Mauro Mendonça e Carlos Augusto Strazzer, permaneceu nove meses em cartaz no Rio de Janeiro. “Titubeei muito para aceitar, porque não era atriz e sabia que seria comparada a Bibi Ferreira e Marília Pêra. A trilha sonora era dificílima”, recorda. O esforço foi recompensado com elogios da crítica, capas em jornais e revistas e indicação ao Prêmio Molière.
Hoje, aos 77 anos e celebrando 60 anos de trajetória, Claudya segue fiel ao que define como teimosia: cantar. Mãe da cantora Graziela Medori, ela mantinha, antes da pandemia, uma série de shows comemorativos dedicados à própria obra. Para o historiador e pesquisador Ricardo Santhiago, “Claudya é uma cantora extraordinária, com timbre, técnica e percepção musical absolutamente únicos”. Segundo ele, os percalços enfrentados ao longo da carreira se agravam em um mercado musical que mudou radicalmente desde os anos 1960. “Por isso, é importante historicizar sua trajetória sem vitimismo”, afirma.