Excesso de carnes na dieta pode impactar saúde intestinal e cardiovascular, alertam especialistas
No Dia Mundial Sem Carne, especialistas do Vera Cruz Hospital alertam para os riscos do excesso de carnes processadas e orientam como equilibrar o consumo de proteínas
Celebrado em 20 de março, o Dia Mundial Sem Carne tem ampliado o debate sobre hábitos alimentares e qualidade da dieta. A data propõe uma reflexão sobre o consumo de proteínas animais, especialmente em um contexto em que estudos científicos associam o consumo elevado de carnes, sobretudo as processadas, a riscos para a saúde. Entre os possíveis impactos estão a ingestão calórica acima do necessário, menor consumo de fibras e sobrecarga renal em pessoas com doença renal prévia. Além disso, dietas com excesso de carnes e baixa presença de vegetais podem favorecer problemas como constipação intestinal e desequilíbrios metabólicos.
Para a nutricionista Ligia Vieira Carlos, do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), reduzir ou retirar a carne da alimentação pode ser uma escolha arriscada, caso não haja adequação nutricional. “A chave é manter uma dieta variada, rica em leguminosas, cereais integrais, vegetais, sementes e oleaginosas e manter o consumo de proteínas de modo adequado, ainda que a preferência seja mais para proteínas vegetais do que as de origem animal. A combinação correta desses alimentos garante todos os aminoácidos essenciais necessários ao organismo”, explica.
Segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira, cerca de 100 gramas de carne podem ser substituídas por uma concha de leguminosas, como feijão, lentilha, grão-de-bico ou ervilha. “A combinação clássica de feijão com arroz, por exemplo, fornece uma proteína completa, com todos os aminoácidos essenciais, porém é preciso adequar a meta proteica diária, para que não haja déficits nutricionais”, afirma a nutricionista.
Para quem deseja diminuir o consumo de carne, a orientação é começar com mudanças graduais. Uma estratégia simples é adotar a chamada “segunda-feira sem carne”, reduzindo o consumo apenas um dia por semana. “Essa estratégia facilita a adaptação do paladar e da rotina alimentar. Também é possível aumentar a presença de legumes, verduras e grãos nas refeições e reduzir gradualmente as porções de carne”, orienta Ligia.
Excesso de proteína merece atenção
Em um cenário marcado pela popularização das dietas hiperproteicas, a médica nutróloga Gabriela Reis, também do Vera Cruz Hospital, alerta que o consumo exagerado de proteínas não traz benefícios adicionais para a maioria das pessoas. “Mais proteína não significa mais ganho muscular indefinido. Para a maioria da população, ingestões acima de 1,6 grama por quilo de peso corporal por dia não apresentam benefícios relevantes”, explica.
Estudos científicos também associam o consumo elevado de carnes vermelhas e processadas ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, mortalidade precoce e câncer colorretal, conhecido como câncer de intestino. A doença está no centro da campanha Março Azul-Marinho, realizada ao longo do mês para reforçar a importância da prevenção, da adoção de hábitos saudáveis e do diagnóstico precoce.
Gabriela ressalta, porém, que dietas vegetarianas ou veganas podem ser saudáveis em todas as fases da vida, desde que bem planejadas. “O risco não está na retirada da carne em si, mas na falta de planejamento nutricional. Alguns grupos precisam de atenção especial, como idosos, gestantes, crianças em fase de crescimento, atletas e pessoas com anemia ou doenças crônicas”, afirma.
Ao excluir a carne da alimentação, alguns nutrientes precisam ser monitorados com mais atenção, como vitamina B12, ferro, zinco, ômega-3 e a ingestão adequada de proteínas ao longo do dia. “Com planejamento adequado, a maioria desses nutrientes pode ser obtida por meio de leguminosas, grãos, sementes, oleaginosas e derivados da soja. A vitamina B12, entretanto, costuma exigir suplementação”, conclui.