Igreja Nossa Senhora do Rosário: uma história de fé, memória e transformação urbana em Campinas

A história da Igreja Nossa Senhora do Rosário, atualmente localizada na Avenida Francisco José de Camargo Andrade, no Jardim Chapadão, é também a história das transformações urbanas de Campinas, da resistência de uma comunidade religiosa e de um importante capítulo da memória da população negra na cidade.

O templo que hoje se destaca como uma das referências religiosas e arquitetônicas da região do Jardim Chapadão tem uma origem muito mais antiga do que sua localização atual sugere. Sua história remonta ao início do século XIX, quando Campinas ainda era conhecida como Vila de São Carlos e a devoção a Nossa Senhora do Rosário reunia uma parcela significativa da população, especialmente os negros escravizados e libertos.

A igreja atual mantém a tradição e a invocação religiosa do antigo templo que existia no Centro, mas sua construção em outro endereço foi consequência de um dos episódios mais marcantes da história do patrimônio histórico campineiro: a demolição da Igreja do Rosário original, em 1956, para dar lugar às obras de modernização do sistema viário central.

As origens: uma igreja construída no século XIX

A primeira Igreja Nossa Senhora do Rosário começou a ser construída no final do século XVIII, por iniciativa do padre Antônio Joaquim Teixeira. A capela foi inaugurada em 1817, ainda sem estar completamente concluída, com a entronização da imagem de Nossa Senhora do Rosário.

Naquele período, a construção tinha uma importância que ultrapassava a dimensão religiosa. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, formada principalmente por negros escravizados e libertos, teve participação fundamental na história do templo.

A igreja tornou-se um espaço de expressão da religiosidade, sociabilidade e identidade da população negra de Campinas. Em seu entorno aconteciam festas religiosas, procissões e manifestações populares que integravam a vida da antiga vila.

Ao longo do século XIX, o edifício passou por ampliações e reformas. Em 1847, depois de receber reboco e pintura, chegou a funcionar como matriz provisória. Por volta de 1870, ganhou duas torres laterais, posteriormente demolidas, em 1887, por apresentarem riscos à população.

No início do século XX, uma nova edificação começou a ser construída no mesmo local. Feita em alvenaria de tijolos, foi inaugurada em novembro de 1913, substituindo a construção mais antiga.

A demolição no Centro: o preço da modernização

A antiga igreja ficava na região onde hoje está a Praça Guilherme de Almeida, nas proximidades do atual Largo do Rosário, cujo nome oficial é Praça Visconde de Indaiatuba.

Sua demolição foi consequência do Plano de Melhoramentos Urbanos de Campinas, elaborado sob a orientação do engenheiro-arquiteto Francisco Prestes Maia. O projeto, desenvolvido a partir da década de 1930, pretendia modernizar a região central, ampliar avenidas e facilitar a circulação de veículos.

A Igreja do Rosário acabou se tornando um dos principais obstáculos à execução desse plano, especialmente pelo alargamento das avenidas Francisco Glicério e Campos Sales.

O argumento urbanístico, entretanto, não foi o único utilizado para justificar a derrubada. Em janeiro de 1956, a Prefeitura determinou a interdição do templo, alegando que uma vistoria havia identificado trincas e problemas estruturais que colocariam em risco os frequentadores.

A justificativa foi contestada. Outros engenheiros, vindos de São Paulo, avaliaram que a igreja poderia ser recuperada, em vez de demolida. Mesmo diante da controvérsia, prevaleceu a decisão de desapropriar o imóvel.

Em 9 de maio de 1956, foi assinada a escritura definitiva de desapropriação entre a Prefeitura e o Bispado de Campinas. No dia 12 de maio, começaram os trabalhos de demolição, concluídos em setembro daquele ano.

A decisão provocou indignação em diferentes setores da sociedade campineira. Não se tratava apenas da perda de um edifício religioso, mas do desaparecimento de um espaço carregado de significado histórico, cultural e social, especialmente para a população negra.

A documentação histórica reunida pelo Centro de Memória da Unicamp registra que a aprovação do processo de desapropriação na Câmara Municipal ocorreu por 19 votos favoráveis e dois contrários.

Parte do patrimônio artístico da antiga igreja conseguiu ser salva. Painéis, pinturas e objetos sacros foram retirados antes ou durante a demolição, embora alguns tenham se deteriorado por falta de condições adequadas de armazenamento.

O episódio representa uma das contradições do processo de modernização de Campinas: em nome do progresso e da mobilidade urbana, a cidade abriu mão de um de seus edifícios históricos mais significativos.

A reconstrução no Jardim Chapadão: uma obra de 33 anos

A demolição no Centro não significou o fim da história da Igreja do Rosário em Campinas.

Os padres da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, conhecidos como claretianos, decidiram permanecer na cidade e dar continuidade à missão religiosa. Eles já possuíam um terreno na região do Jardim Chapadão, onde seria construído o novo conjunto religioso.

A pedra fundamental da nova igreja foi lançada em 7 de outubro de 1956, justamente no dia dedicado a Nossa Senhora do Rosário.

O projeto procurou preservar a identidade visual e o significado afetivo do antigo templo. A proposta era construir uma igreja inspirada na anterior, mantendo sua referência arquitetônica, mas com adaptações.

A construção foi conduzida principalmente com os esforços dos missionários claretianos, com destaque para o padre espanhol Damião Ormaeche Leguerica, que teve papel importante na mobilização dos recursos e no acompanhamento dos trabalhos.

A obra, porém, foi longa. A casa destinada aos religiosos ficou pronta no início de 1971. No mesmo ano, o templo recebeu sua cobertura, permitindo a retomada das celebrações e dos atendimentos religiosos.

Em 28 de outubro de 1965, mesmo com a igreja ainda em construção, foi oficialmente criada a Paróquia Nossa Senhora do Rosário. Seu primeiro pároco foi o padre Artidório Aniceto de Lima.

A conclusão física do templo ocorreu no final de 1978, mas a inauguração oficial aconteceu somente em 7 de outubro de 1989.

Portanto, entre o lançamento da pedra fundamental e a inauguração transcorreram 33 anos. Se considerada a conclusão da obra até a inauguração oficial, foram aproximadamente 11 anos.

É importante observar essa diferença: a igreja não levou 33 anos de construção contínua. O período corresponde à trajetória de implantação do novo complexo religioso, com etapas distintas, retomadas e conclusão posterior.

Réplica ou uma nova igreja inspirada na original?

Uma questão importante é esclarecer que a igreja do Jardim Chapadão não é uma reprodução absolutamente idêntica da construção demolida no Centro.

O projeto foi concebido para preservar a imagem e a identidade do antigo templo, mas incorporou modificações arquitetônicas. O próprio Centro de Memória da Unicamp descreve a proposta como uma nova igreja à imagem da anterior, porém com características próprias.

Entre as diferenças mais significativas estão os detalhes da fachada principal, especialmente a rosácea, elemento circular decorativo, e as torres, que passaram a ter a mesma altura. Segundo o registro histórico, a decisão de manter as torres niveladas também esteve relacionada à economia de recursos durante a construção.

A nova igreja foi concebida em estilo neorromânico, mantendo a referência arquitetônica do antigo templo.

A construção original, por sua vez, havia passado por uma transformação significativa antes de ser demolida. Depois da edificação de 1913, recebeu uma ampla remodelação que lhe conferiu características neorromânicas. O projeto arquitetônico é associado ao engenheiro-arquiteto J. E. Latini, e as intervenções posteriores contaram com a participação de Affonso Massarotto.

Outro destaque artístico da antiga igreja foram as pinturas de Thomaz Scheuchl, artista austríaco cujo trabalho reunia influências da arte egípcia, bizantina e românica.

A ornamentação e as pinturas tinham papel importante na identidade visual do templo. Parte desse patrimônio artístico foi preservada durante o processo de demolição, embora nem todas as obras tenham conseguido sobreviver em boas condições.

Portanto, embora a igreja atual dialogue diretamente com a arquitetura do antigo Rosário, não se trata de uma réplica fiel: é uma reconstrução inspirada no edifício original, com soluções próprias e alterações de projeto.

Arquitetura Italiana

Uma referência religiosa e histórica no Jardim Chapadão

Atualmente, a Paróquia Nossa Senhora do Rosário está instalada na Avenida Francisco José de Camargo Andrade, 535, no Jardim Chapadão.

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